Marco Polo

Marco Polo (1254 – 1324) supostamente foi um mercador veneziano que afirmou ter realizado uma viagem à China de Kublai Khan, tendo sido agente do mesmo por cerca de dezessete anos, em que viveu e circulou na China por esse tempo, relatando o que viu e ouviu nas viagens realizadas em seu livro. Responsável por um escrito muito influente do medievo, principalmente para o imaginário popular em geral, sendo ele visto como fantástico, exagerado e por vezes mentiroso entre os letrados e o grande público, mas nem por isso ignorado ou desacreditado em completude. Seus relatos do Extremo Oriente – sob um ponto de vista europeu ocidental – foram realmente muito populares, atravessando séculos e sendo lidos de diversas formas, como entretenimento, inventário de riquezas, escrito geográfico, incentivo missionário e assim por diante, tendo influência até mesmo no século XVI e além. O texto foi apropriado amplamente em conjunto dos novos conhecimentos cartográficos, que creditavam Polo como um dos grandes contribuidores para a geografia, embora também fosse alvo de certas ressalvas provindas das novas navegações. O texto é conhecido e estudado até os dias atuais, contexto no qual muitos de seus aspectos são questionados e tratados com rigor, como ocorre com a própria viagem.
Nicolo e Maffeo Polo, pai e tio de Marco, também mercadores, afirmaram ter sido os primeiros latinos a chegarem à China, viagem feita cerca de onze anos antes daquela de Marco. Os Polo deixaram o bairro veneziano em Constantinopla rumo à Soudak na Crimeia em 1260 ou 1261 – e não em 1253, como consta no livro. Ano oportuno para partirem em uma empreitada de curto prazo, visto que forças bizantinas retomaram a cidade dos latinos em 1261, sendo esse um dos motivos pelos quais eles se viram impossibilitados de voltar para casa (Doré, 2020, p. 457–458; Larner, 1999, p. 33).
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Em Soudak fizeram negócios durante cerca de um ano, região dominada por Berke Khan, que entrou em guerra com seu primo Hülegü, Ilkhan da Pérsia. Esse se tornou o segundo motivo que dificultou o retorno para casa, fazendo com que os irmãos decidissem continuar viagem (Wood, 1997, p. 16). Chegaram em Bukhara e lá residiram por três anos, onde um enviado por Hülegü para o Grande Khan encontrou os irmãos e, segundo o livro das viagens, se surpreendeu por serem latinos que aprenderam a “língua dos tártaros”. Também é dito que foi muito gentil e os convenceu a viajar para conhecer Kublai Khan pessoalmente, pois presumiu que o soberano teria muito prazer em conhecê-los, o qual é dito nunca ter visto um latino (Doré, 2020, p.458).
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Na corte de Kublai, foram muito bem recebidos pelo líder, que tinha grande interesse nos costumes latinos e principalmente em sua religião, assunto que motivou inúmeras visitas à corte. Certo dia, o Khan pediu que os venezianos regressassem e solicitassem ao Papa o envio de cem “homens sábios e bem instruídos na religião cristã” – com o intuito de provar a superioridade do Cristianismo em relação às outras religiões, segundo narra o livro das viagens – além de óleo da lâmpada acesa do Santo Sepulcro. Enviou-se com eles um “barão” mongol. Foram equipados com Paizas – tabletes de ouro com o brasão de armas que forneciam passagem, proteção e providências pelas províncias mongóis por onde passavam – e foi dito que o barão morreu no meio da viagem. Os irmãos chegaram ao Acre em abril de 1269, quando receberam a notícia de que o Papa havia morrido. Retornando à Veneza, aguardaram o conclave por dois anos. Como não queriam deixar Kublai esperando mais tempo, partiram de novo em viagem, agora com o jovem Marco, de dezessete anos (Doré, 2020, p. 458; Larner, 1999, p. 38).
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Os Polo conseguiram uma carta do recém eleito Papa Gregório X, dois “frades pregadores” – que debandaram por medo de conflitos que aconteciam na região, diz o livro das viagens – e um pouco do óleo do Santo Sepulcro, chegando à corte em 1275. Foi dito que o Khan se maravilhou com o jovem Marco, falante de quatro línguas – o chinês não sendo uma delas –, fazendo dele um de seus agentes imperiais, um diplomata informante e mensageiro. Consta até mesmo que ele teria sido governador de Yangzhou por três anos, o que tudo indica ser mentira ou um recurso narrativo de autoridade feito por Rustichello de Pisa. Este era um escritor de épicos cavaleirescos, conhecido por sua compilação de textos do ciclo arturiano e responsável por registrar as memórias de Marco com a ajuda de algumas notas que o veneziano guardava. Segundo o livro das viagens, Marco seria um funcionário central próximo do Khan, o que não aparenta ser a realidade: seu nome por exemplo, não consta nos documentos chineses, sendo esse um dos argumentos que a sinóloga Frances Wood (1997, p. 141–147) se assegura para questionar a viagem de Marco. A viagem aconteceu de fato, com as devidas ressalvas a exageros, datas e afins, mas o documento que as relata se sustenta em outras descrições. Marco muito provavelmente foi um funcionário do Khan, mas não tão próximo ou importante como narra em seu livro. Além disso, possivelmente os Polo utilizaram nomes não latinos em sua estadia no Oriente (Estudos Medievais, 2025, 06min 05s – 08min 49s).
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Passados dezessete anos, os venezianos desejaram retornar para casa, com certa relutância Kublai os permitiu partir. Contudo, antes de partirem, precisaram cumprir uma última tarefa, escoltar uma princesa mongol para se casar com Arghun Khan (f. 1291). Realizam a viagem por uma rota marítima, vista como mais segura. Por fim, os Polo conseguem chegar a Veneza em 1295 (Doré, 2020, p. 458–459; Larner, 1999, p. 43).
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Em 1298, provavelmente após a batalha naval de Curzola, Marco foi feito cativo numa prisão genovesa, onde conheceu Rustichello – este capturado em 1284, na Batalha de Meloria. Ambos não foram presos em uma torre ou calabouço, mas possivelmente confiados a uma família em uma casa, servindo de moeda de troca de reféns. Após a prisão, Marco casou-se com Donata Badoer e teve três filhas. Não realizou mais incursões para o Oriente. Morreu em 1324 e, em seu leito de morte, teria dito a suposta frase: “Não contei metade do que vi”. Deixou um testamento, que constava doações para fins pios, enquanto o restante foi transferido para a mulher e as filhas – incluindo seu Paiza e sedas chinesas, entre outros itens provindos da viagem. Também deu liberdade ao seu escravo mongol, Pietro (Doré, 2020, p. 459–460; Larner, 1999, p. 45).
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O manuscrito original hoje está perdido, provavelmente escrito em franco-italiano, com elementos característicos de textos cavaleirescos – desde sua introdução, até o uso de repetições e exageros, como o tempo de viagem para o Oriente. Contando também com descrições de batalhas e recursos narrativos, a exemplo dos Polo sobrevivendo todas as viagens enquanto seus companheiros morriam ou desistiam, além de suas participações em eventos históricos (Larner, 1999, p. 46–52, p. 56–58).
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Existe hoje uma pesquisa extensa que classifica as cópias remanescentes em diferentes grupos. É identificável um grupo de manuscritos mais antigos que apresentam as características mencionadas anteriormente. A maioria dos acadêmicos concorda que esses são os mais próximos do original. Este, inclusive, pode ter tido duas versões, uma para o público e outra mais privada e exclusiva para os Polo distribuírem. Sabe-se dessas características pela análise das outras cópias e de como elas se diferem com o passar do tempo conforme a intenção do copista, além das extrapolações feitas a partir de outros escritos de Rustichello e de seu contexto histórico (Larner, 1999, p. 3–4, p. 58, p. 184–186).
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O livro foi traduzido, copiado e compilado ampla e rapidamente, tendo assim diversas versões e nomes, muitas vezes com trechos modificados ou capítulos inteiros adicionados, a depender da intenção do tradutor ou copista que, por exemplo, podia priorizar narrativas mais religiosas ou maravilhosas (Larner, 1999, p. 105–115). Sendo assim, não é conhecido apenas por um nome, sendo conhecido como “As Viagens”, “A Descrição do Mundo”, “Livro das Maravilhas” e pelo famoso “Il Milione” (O Milhão). Este último é um nome que levanta diversas teorias: pode ser um termo que Marco usava para se referir às riquezas da China, uma forma para se referir ao “milhão” de maravilhas do Oriente ou, ainda, um nome que identificava a mansão que a família Polo comprou em Veneza, uma corruptela de “Vilione”, sobrenome dos antigos proprietários (Larner, 1999, p. 44, p. 77; Wood, 1997, p. 53).
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Escrever é resumir, como fez Marco de modo a registrar vinte e quatro anos de viagem, com toques de aventuras épicas e, por vezes, exageros dados por Rustichello. O texto descreveu cidades distantes e suas arquiteturas, costumes de destaque de diversos povos e suas religiões, grandes batalhas entre khans, criaturas fantásticas como os unicórnios e o pássaro Roca, assim como um folclore asiático antigo como o Velho da montanha e as Ilhas Macho e Fêmea. Além disso, elaborou até mesmo uma reinterpretação de histórias bem-conhecidas da cristandade, como o Preste João e a terra de Gog e Magog (Larner, 1999, p. 80–82).
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Os nomes de lugares descritos foram muito influentes para mapas futuros, como o Atlas Catalão, que se baseou em uma das versões do livro. Nele é possível ver a China como “Catayo” (a Catai de Marco Polo), as exageradas mais de sete mil ilhas asiáticas e as opulentas terras do Extremo Oriente, sendo também possível ver uma representação do Grande Khan e de uma caravana indo em direção a Ásia, comumente relacionada aos Polo. Essa esfera geográfica do livro foi sua principal herança, já que a obra não gerou efeitos imediatos, por ser vista como fantástica e mesmo falsa na grande maioria das vezes ou simplesmente como uma viagem difícil e demorada, lida mais enquanto literatura do que um grande incentivo a mercadores ou exploradores do Oriente. Teve sua autoridade construída ao longo dos séculos com outros escritos posteriores que complementaram o que ela não dizia. Para além de sua geografia, contribuiu para a cartografia, a exemplo da nomenclatura dos lugares, como no próprio Atlas Catalão – por mais que alguns cartógrafos ficassem confusos em onde e como representar certos lugares. Foi lido de modo mais erudito com os humanistas, que “reviveram” os estudos de geografia. Marco teve suas devidas ressalvas e a falta de confiança de alguns, mas por muitos foi considerado uma das grandes autoridades no assunto (Larner, 1999, p. 116, 135–139, 144–145, 147–150).
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Antes dos Polo, outros latinos já haviam chegado no Oriente, muito próximo da China, como Guilherme de Rubruck (1253) e Frei Giovanni di Pian di Carpine (1245), que chegaram a Caracorum, capital imperial mongol. Eles foram pioneiros em registrar o cotidiano, costumes, alimentos, crenças, vestimentas e outros elementos dos mongóis, relatando também uma comunidade de latinos e cristãos já existente entre eles (Larner, 1999, p. 24). A viagem de Marco Polo aconteceu dentro do período convencionado pela historiografia como Pax Mongolica (final do século XIII a meados do XIV), em que o grande domínio dos mongóis proporcionou relativa paz e estabilidade dentro da Eurásia. O que talvez possibilitou viagens mais longas dentro das rotas da seda, como as de Marco e também as duradouras viagens de Ibn Battuta no século seguinte, além de vários outros caravaneiros e viajantes (Pinto, 2024, p. 99).
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O itinerário da viagem não segue uma lógica linear, por vezes faz um zigue-zague, toma caminhos desnecessários ou simplesmente não utiliza rotas mais curtas já conhecidas, como aponta Frances Wood (1997, p.41). John Larner (1999, p.85) rebate o ponto ao dizer que o livro não é um manual de mercador ou de viagens, e sim um livro onde Marco observa a “geografia humana” e tenta descrever o que viu nesses anos de viagem que ocuparam a maior parte de sua vida. Trata-se de um relato muito único, onde Rustichello utiliza das rotas relatadas como recurso narrativo, por isso aqueles que tentaram alguma vez seguir tais rotas foram frustrados. A ideia do livro é ser uma “descrição do mundo” e, por isso, não segue necessariamente uma ordem de passos, sendo organizado tanto por regiões que ele realmente passou quanto lugares que só ouviu falar ou leu por meio outros viajantes, cidadãos e relatórios de terceiros na corte do Khan.
Marco Polo definitivamente é uma personalidade muito conhecida até hoje, que tem sua jornada rememorada por meio de filmes, séries, livros ou mesmo em nomes de empresas de viagem, transporte público, entre outras coisas. Mas é preciso ressaltar que Marco Polo não foi a ponte robusta, pioneira e desbravadora da Cristandade com o Oriente (como algumas narrativas posteriores fazem entender), era apenas mais um dentro das artérias do muito bem estruturado coração cosmopolita das rotas da seda. Tendo chegado ou não à China, como contestam estudiosos como Frances Wood (1997), é certo que influenciou a Cristandade Latina. A obra desse viajante trouxe uma descrição fantástica do longínquo e, por muitas vezes, desconhecido, expondo seu entendimento do Outro a partir do Eu, assim como servindo de material para acadêmicos, curiosos e também futuros exploradores, tal como Cristóvão Colombo, cujo exemplar pessoal do livro continha anotações diversas, principalmente sobre produtos e especiarias (Estudos Medievais, 2025, 14min 25s).
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Sobre o autor: este verbete foi escrito pelo graduando em história pela UFSM e membro do VIRTÙ Guilherme Viegas Fenalti. E-mail: Guivfenalti@gmail.com
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Referências:
DORÉ, Andréa. Marco Polo In: NASCIMENTO, Renata Cristina de Sousa; SOUZA, Guilherme Queiroz de (Orgs.). Dicionário: Cem Fragmentos Biográficos. A Idade Média em Trajetórias. Goiânia: Editora Tempestiva, 2020.
ESTUDOS MEDIEVAIS. Estudos Medievais Perfil 12 - Marco Polo A. Entrevistada: Andrea Doré. Entrevistadora: Marina Sanchez [S./L.]: Estudos Medievais, 21 ago. 2025. Podcast. Disponível em: https://spotify.link/Kvbr6FjLWXb. Acesso em: 1 nov. 2025.
LARNER, John. Marco Polo and the discovery of the world. New Haven London: Yale University Press, 1999.
PINTO, Otávio Luís. A Rota da Seda. São Paulo: Contexto, 2024.
POLO, Marco. As viagens. Tradução: Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Martin Claret, 2015.
WOOD, Frances. Marco Polo foi à China? Rio de Janeiro: Record, 1997.