Temporalidade Medieval

O tempo é elemento fundamental da ciência histórica, sendo, também, importante fazê-lo um dos seus objetos de estudo e reflexão. Desse modo, o objetivo desse texto é discutir a temporalidade medieval, com foco na cristandade latina, demonstrando como o tempo era percebido, medido e vivido e de que forma isso se alterou durante o medievo como parte das dinâmicas sociais e relacionais de dominação. Nesse cenário, podemos perceber as contradições e complexidades de um período em que diversos tempos coexistiam (Le Goff, 2002, p. 536).
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Hoje, apesar de engajados em múltiplas dinâmicas temporais, nos referimos sempre a um tempo unificado, universal e mensurável até as mínimas frações. Nisso, o tempo é percebido de forma cada vez mais acelerada. Em contrapartida, na Idade Média, ignora-se um tempo unificado, universal e medido precisamente, com lentos progressos em seu controle e medição (Le Goff, 2002, p. 536).
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Durante o medievo, a Igreja foi o elemento central e estruturante da sociedade, pois todas as experiências e relações se davam por meio de sua visão cristã de mundo, já que ser cristão no medievo latino não era uma escolha e sim uma herança (Baschet, 2006, p. 168). Com isso, os quadros temporais também passaram a ser ordenados pelos eclesiásticos no processo de ascensão do cristianismo, no qual o calendário antigo, que refletia os ciclos naturais e festividades politeístas, foi gradualmente cristianizado e substituído por um modelo que centralizava a passagem do tempo na figura de um Deus único (Le Goff, 2002, p. 531), o qual, através da Encarnação de Cristo, se inscreveu na história (Baschet, 2006, p. 315). O tempo dos deuses passou a ser o tempo do Deus único, com novas divisões e ritmos. Entretanto, é importante reconhecer que apesar das rupturas, por muito tempo, mantiveram-se sistemas de datação com referência na antiguidade. Ainda, muitas festas importantes do calendário litúrgico inscrevem-se em antigas celebrações pré-cristãs (Le Goff, 2002, p. 534).
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Em 525 foram publicadas as Tábuas Pascais de Dioniso, o Pequeno, tornando-se o canal pelo qual se difundiu a noção de “era cristã”. Mas, foi em 725 que o sistema de Dioniso se assegurou através do tratado Da medida do tempo de Beda, o Venerável, primeira obra a utilizar sistematicamente a “era cristã” como ferramenta de demarcação temporal. A utilização dessa “era da Encarnação” — datação a partir do nascimento de Cristo — passou a ser generalizada no Ocidente ao longo dos séculos XI e XII, nos documentos pontifícios, atos das chancelarias e em obras historiográficas (Baschet, 2006, p. 303). Já o século, período de cem anos, aparece no século XIII, mas só começou a ser utilizado na historiografia a partir do XVI. Esse modo de contar o tempo a partir do nascimento de Jesus, sistema que está em vigor até hoje, foi estabelecido no decorrer da Idade Média e se tornou uma marca de unidade da cristandade (Baschet, 2006, p. 303) — seu tempo é o tempo do seu Deus na história.
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Havia, contudo, uma grande diversidade na escolha do dia que inaugurava cada novo ano. O 1° de janeiro não tinha valor cristão, já que foi adotado antes, na antiguidade. Em geral, caiu em desuso, com exceção de Castela, que permaneceu inaugurando o ano novo no 1° de janeiro romano até o século XIV. Entre as divergências de datação estão a Anunciação, o Natal e a Páscoa, todos marcos importantes na história da salvação. É interessante notar que essas disputas temporais também refletem o estado de fragmentação política europeia, já que, durante alguns meses, dois anos diferentes poderiam coexistir no mesmo reino (Baschet, 2006, p. 304).
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Em relação ao calendário anual, a Idade Média vive com o estabelecido por Júlio César: um ano de 365 dias, dividido em 12 meses, com um dia suplementar a cada quatro anos (Baschet, 2006, p. 304). São permanências da antiguidade que transpassaram o medievo e estão presentes ainda hoje. Agora, uma inovação decisiva foi a introdução da semana estabelecida sobre os sete dias da Criação bíblica. Nesse cenário, há seis dias de atividades e o sétimo dia de repouso, para Deus e os homens. Este, o “dia do Senhor”, é consagrado ao culto e à sociabilidade, sendo determinante no ritmo de vida (Baschet, 2006, p. 304).
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No que se refere às horas do dia, as 24 horas não são ignoradas, mas, na prática, não são utilizadas. A medição do tempo, dia a dia, era mais fluida já que as horas canônicas, indicadas pelos sinos das igrejas, não só davam ritmo à jornada clerical como também a todas as atividades dos vilões (Baschet, 2006, p. 305). Essas horas indicavam as preces que se referem a cada hora em cada dia do ano, variando em cada estação. Já, entre a noite e o dia, havia uma dualidade. A noite, em oposição ao dia, era vista como um momento de medos materiais e espirituais (Baschet, 2006, p. 305). Por fim, a medição de instantes mais breves se dava por aproximações: “o tempo de uma vela”, “o tempo de uma Ave-Maria”, “de um Pai-Nosso” (Baschet, 2006, p. 305). Então, percebe-se que o tempo — cada dia e, assim, a vida — era marcado pelo ritmo da oração e da devoção.
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Nessa conjuntura, o ciclo litúrgico anual, com sua estrutura estabelecida desde o século VII, foi a principal dinâmica do Tempo Clerical. O calendário litúrgico organiza-se com eventos da história da salvação que se colocam como celebrações comunitárias significativas. Este calendário é dividido em ciclos: Ciclo do Natal, Ciclo da Páscoa, Ciclo Comum e o Calendário dos Santos (Santoral) (Baschet, 2006, p. 306). O Ciclo do Natal inicia com o Advento, período de preparação para a Natividade, seguido pelo Natal, em 25 de dezembro, e prolongado pela Epifania, associada à visita dos magos. A Anunciação recorda a visita e anúncio do anjo Gabriel à Maria e é celebrada nove meses antes do Natal, em 25 de março. O Ciclo da Páscoa inicia com a Quaresma, período de 40 dias, em que a última semana é a Semana Santa, do Dia de Ramos à Ressurreição no Domingo de Páscoa. Este ciclo prolonga-se com a Ascensão e o Pentecostes, respectivamente, 40 e 50 dias após a Páscoa. O Ciclo Comum não é dedicado a festas específicas, mas sim, a relembrar e meditar acerca da vida de Cristo. O Ciclo de Cristo, Natal e Páscoa, concentram-se na época invernal europeia. Com isso, o ciclo anual é equilibrado com as festas da Virgem e de outros santos que são acrescentadas ao longo do medievo, formando o Santoral (Baschet, 2006, p. 307).
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Este calendário contém ligações com o calendário e as festas agrárias, por isso é atravessado por tensões (Baschet, 2006, p. 307). O Natal, caso mais perceptível, é fixado no solstício de inverno como forma de substituir o culto a antiga divindade Sol invictus, colocando Cristo como o próprio Sol. Outro caso é a Páscoa que tem como referência o equinócio de primavera. Além disso, em geral, as festas cristãs e seu sucesso são ligados aos ritmos naturais e agrícolas e às antigas celebrações as divindades a eles ligadas (Baschet, 2006, p. 307-308). Esse tempo da liturgia se impõe sobre muitos aspectos da vida: trabalho, descanso, alimentação, sexualidade (Baschet, 2006, p. 307). Nisso, desloca as realidades culturais para um plano espiritual, cristianizando o tempo. O tempo se revela, assim, como um campo de disputa em que o ritmo litúrgico impõe-se não só aos múltiplos aspectos da existência, mas às diversas temporalidades coexistentes.
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O Tempo Agrícola, ou o Tempo da Terra, atinge a imensa maioria da população medieval, já que os ritmos de vida são ligados à natureza e, nisso, aos ciclos solares. É um tempo cíclico e, em parte, compatível com o tempo litúrgico, como já apontado (Baschet, 2006, p. 308-309). O Tempo Senhorial, dos senhores e dos que estão sujeitos ao senhorio, também se inscreve, em grande parte, nos quadros do tempo clerical. Exemplos são as festas aristocráticas ocasionadas pelos adubamentos¹, organizadas no dia de Pentecostes, assim como o tempo das cobranças de tributos sendo santificado pela escolha de festas importantes e variáveis localmente (Baschet, 2006, p. 309). Os torneios, contudo, são exemplo de prática sem preocupação litúrgica, organizados sem periodicidade.
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Já, o Tempo das Cidades e dos Mercadores introduziu certo distanciamento em relação aos tempos da Igreja, dos senhores e da terra, pois, mesmo com contato direto com a vida rural, as atividades artesanais e comerciais não são diretamente regidas pelo ritmo das estações (Baschet, 2006, p. 310). Por volta de 1270 a 1280, na cidade e para a cidade, o relógio mecânico público surge. Então, se difunde na Europa ao longo do século XIV. Essa invenção associa-se a um novo tempo social: o tempo do trabalho dos artesãos, uma necessidade de marcar mais precisamente o início e o fim de suas atividades. Com essa inovação, o monopólio da medição temporal, detido pela Igreja, é questionado, já que há certo movimento comunal na sua ordem (Baschet, 2006, p. 311). Ainda, o relógio permitiu a emergência de certa unificação do tempo. Uma tentativa de unificação foi feita por Carlos V, quando ordenou que todos os relógios do Reino da França marcassem a mesma hora que a de seu palácio parisiense. Isso demonstra que o tempo dos relógios e da unificação também é o Tempo do Poder Real que busca afirmar-se (Baschet, 2006, p. 312).
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Por consequência, o tempo histórico desse período foi permeado por ambiguidades. A Antiguidade apresentou, em geral, um tempo circular, cíclico, já a noção cristã, imponente no medievo, teria inaugurado a concepção de um tempo linear em que há um início na Criação e um fim no Juízo final. Mas, a oposição entre esses dois modelos temporais é, em parte, insuficiente, pois, por mais que seja útil, não reconhece a complexidade dos tempos históricos. A questão é que, simultaneamente, um tempo cíclico e um linear convivem (Baschet, 2006, p. 317). Desse modo, o importante é compreender em que medida eles são ou não assumidos e se se constituem ou não como dominantes. Trata-se de analisar como esses tempos se combinam e se articulam. No próprio cristianismo encontra-se a combinação destes dois tipos de tempo: o tempo linear é o da história humana, da longa duração, já o tempo circular é o do ciclo dos dias do ano, que remete o presente ao seu passado, nesse caso, à vida e obra de Cristo (Baschet, 2006, p. 318). Assim, no medievo, a visão linear traz uma expectativa projetada no além, em uma perspectiva cristã de fim dos tempos. Contudo, “aqui embaixo”, no cotidiano, as experiências do passado continuam sendo a referência dominante, portanto, predomina um tempo que retorna e, desse modo, que não passa. Nisso, a diferença entre o passado e o presente tende a se apagar, trazendo um sentimento de atemporalidade.
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Nesse sentido, o que deve ser é o que já foi, o passado é ideal, preferível ao presente. O passado é o tempo da tradição, livre dos perigos das novidades. Esse regime da tradição é caracterizado pela legitimação das práticas ligando-as a uma repetição antiga. Assim, a tradição é uma construção do presente (Baschet, 2006, p. 319). No medievo, logo, transformar a realidade é voltar ao passado fundador. Então, idealizando o passado, o presente é depreciado. Apesar de algumas vezes haver uma concepção cumulativa do saber ligado a ele, a visão que menospreza o presente e o novus que traz é dominante (Baschet, 2006, p. 320-322). Já o futuro tem um peso esmagador, em que é anunciado e conhecido antecipadamente através da bíblia. Com isso, é um objeto tanto de esperança como de medo. Ao mesmo tempo, o futuro é um segredo divino que somente a Igreja é capaz de interpretar, possuindo o monopólio do exercício profético com fins de controle sobre as expectativas e esperanças da cristandade (Baschet, 2006, p. 322-323).
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Em síntese, o medievo possui uma temporalidade multifacetada, e, nesse campo de disputa, tem-se a Igreja como coordenadora das estruturas temporais dominantes. Entretanto, esse tempo cristianizado como dinâmica de dominação impõe uma coerção relativa se comparado ao âmbito espacial, pois, para além do domingo e das festividades mais importantes, os aldeões², em geral, não se atentavam ao dia em que viviam (Baschet, 2006, p. 337). Também, tendiam a ignorar alguns dias de festa em função do seu trabalho (Whitrow, 1993, p. 100). Homens e mulheres comuns, na maioria das vezes, não tinham informações exatas em relação a sua idade e data de nascimento, por exemplo, marcadores cruciais do tempo individual contemporâneo. Além de ser questionável o conhecimento da população acerca do ano corrente da era cristã, já que não era muito utilizado no cotidiano (Whitrow, 1993, p. 100). Logo, a consciência temporal e histórica da cristandade latina distingue-se da nossa, contemporânea, que busca constantemente subscrever a vida e, assim, a história, nas medidas mais exatas possíveis de um tempo que escapa cada vez mais rápido. Mesmo assim, os quadros temporais do medievo ecoam até os dias de hoje, quando percebemos que diversas celebrações e dinâmicas sociais observadas atualmente têm sua historicidade ligada aos processos desse período.
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Notas
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¹ O adubamento era a cerimônia medieval que marcava a transição de um jovem para a cavalaria. Inicialmente uma simples entrega de armas, a partir do século XII tornou-se um ritual mais elaborado e simbólico. Geralmente, no final da adolescência, após a formação militar e ideológica, o jovem recebia sua espada e armas de um nobre. Um momento crucial era a colação, um golpe no pescoço ou ombro com a mão ou a lateral da espada, simbolizando os ideais do grupo e servindo como rito de passagem. Com o tempo, o adubamento foi cristianizado, passando a incluir uma noite de orações na igreja e a bênção da espada sobre o altar (Baschet, 2006).
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² Os aldeões ou vilões eram as pessoas que viviam nos aldeamentos ou vilas e que, com isso, construíram uma identificação em torno do fato de morarem no mesmo espaço, tendo uma identidade coletiva com a aldeia. Essa denominação é a mais adequada ao tratarmos da realidade medieval, ao contrário do termo “camponês” (Baschet, 2006).
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Referências Bibliográficas
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BASCHET, Jérôme. “A Igreja, instituição dominante do feudalismo”. In: A civilização feudal: do ano 1000 à colonização da América. São Paulo: Globo, 2006. p. 167-246.
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BASCHET, Jérôme. “Os quadros temporais da cristandade". In: A civilização feudal. Do ano mil à colonização da América. São Paulo: Globo, 2006. p. 301-338
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KOSELLECK, Reinhart. “Espaço de Experiência e Horizonte de Expectativa”. In: Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto, Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio, 2006, p. 305-327.
LE GOFF, Jacques. “Tempo”. In: LE GOFF, Jacques & SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário temático do Ocidente Medieval. V. II. Bauru, SP: EDUSC; São Paulo, SP: Imprensa Oficial do Estado, 2002.
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WHITROW, G. J. “O Tempo na Idade Média”. In: Tempo na História. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1993.
Sobre o autor do verbete:
Miriã Rusch Santos é graduanda do 6° semestre em História na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), membro do Virtù — Grupo de História Medieval e Renascentista. E-mail: miriaruschsantos@outlook.com.