A Guerra dos Cem Anos

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Um aspecto inicial e um tanto cômico é o fato de que a Guerra dos Cem Anos durou mais do que 100 anos, indo de 1337 a 1453, resultando em 116 anos de instabilidades. Nela, esteve presente a oposição entre os dois reinos mais poderosos da Cristandade latina, os franceses e os ingleses. É importante salientar alguns aspectos do período: os dois reinos tiveram seus aliados, a guerra não durou ininterruptamente e os indivíduos não a chamavam naquele período por esse nome, pois não havia previsão de que fosse ser uma guerra tão extensa. Durante o decorrer da Guerra, cerca de cinco reis governaram de cada lado. Os reis franceses foram: Filipe VI (1337-1350), João II, o Bom (1350-1364), Carlos V, o Sábio (1364-1380), Carlos VI, o Louco (1380-1422) e Carlos VII, o Vitorioso (1422-1461). Já no lado inglês, tivemos Eduardo III (1327-1377), Ricardo II (1377-1399), Henrique IV (1399-1413), Henrique V (1413-1422) e Henrique VI (1422-1461-71 - imprecisão derivada de questões sucessórias que acarretaram na Guerra das Duas Rosas).
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Em 1314, a morte de Filipe IV, o Belo, desencadeou uma sucessão contínua entre seus descendentes em direito ao trono da França, dando início a uma crise dinástica. Primeiramente, seu filho primogênito, Luís X, assumiu o trono de 1314 a 1316, ano em que morreu. Esse deixou uma filha, Joana, e sua esposa grávida, Clemência da Hungria. Por ser um menino, João I assumiu o trono assim que nasceu, porém morreu com 5 dias de vida. Enquanto isso, seu tio se tornou regente e, após a morte do pequeno rei, foi coroado como Felipe V. O mesmo, teve 4 filhas com sua esposa Joana II, Condessa de Borgonha e seu reinado perdurou de 1316 a 1322. Com sua morte, o trono passou para Carlos, o Belo (terceiro filho). Por sua vez, esse ficou no trono entre 1322 e 1328, ano em que morreu e deixou sua esposa, Joana de Évreux grávida de 7 meses de uma menina, que por isso não teve direito ao trono, passando-o para o já regente Filipe de Valois, sobrinho de Filipe, o Belo. Esse, foi coroado em 1328, dando início a dinastia Valois e pondo fim a dinastia dos Capetianos. Cabe ressaltar ainda a grande exclusão das mulheres herdeiras em relação ao trono no período
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Porém, Filipe de Valois, não foi o mais próximo na linha de sucessão. Felipe, o Belo teve três filhos e uma filha. Essa, Isabel de França se casou com Eduardo II e teve um filho, Eduardo III, o mais próximo na linha de sucessão. Porém, Eduardo II era o Rei da Inglaterra e, em 1327, Eduardo III assumiu o reino de seu pai, não podendo herdar o trono da França, visto que ao fazê-lo iria unificar os dois reinos. Em 1337, com a ajuda de sua mãe, Eduardo III reivindicou o reino da França, marcando o início da Guerra dos Cem Anos.
Assim, havia uma dicotomia entre os dois reinos: a França tentava diminuir o poder inglês em seu território, enquanto os ingleses tentavam aumentá-lo. Eduardo III, por mais que fosse rei da Inglaterra, era vassalo do rei francês e tinha títulos e terras no continente. Em 1337, a França tomou territórios ingleses, alegando que Eduardo não estava obedecendo os acordos como vassalo, assim Eduardo acaba enviando tropas para a região alegando falta de autonomia e que, na verdade, ele era o verdadeiro herdeiro da França.
Por ser uma guerra tão extensa, há uma divisão didática feita por historiadores para melhor estudar o período. Assim, a fase Eduardiana abrangeu de 1337 a 1360, período no qual os ingleses foram protagonistas, tomando domínios franceses no continente. O momento ficou conhecido pela tomada de territórios e saques, assim como pela disseminação do terror.
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Nessa fase, ocorreram algumas importantes batalhas: a Batalha de Crécy (1346) foi a primeira grande batalha da guerra, tendo como destaque o uso do arco longo Inglês, garantindo a vitória dos ingleses; a Batalha de Calais (1347), derivada de um cerco iniciado em 1346, garantiu aos ingleses a vitória e a dominação no canal da mancha; e a Batalha de Poitiers (1356), uma das maiores vitórias dos ingleses, ocasionando a captura pelos ingleses do rei João II (que no presente período era o rei da França) e de seu filho mais novo, pelo Príncipe Negro, filho de Eduardo III. Em 1360, Carlos V, filho do rei João II, assinou um tratado de paz com Eduardo III. Além disso, a peste bubônica fez parte da guerra nesse período. Em 1348 o vírus adentrou o ocidente, disseminando-se por toda a Europa e causando grandes estragos.
Em 1369, foi o próprio Carlos V quem descumpriu o tratado, tomando territórios ingleses e sendo o protagonista da fase Carolina (1369-1389). Período marcado pela recuperação da França em decorrência da fase anterior, assim os franceses retomaram Poitiers e lançaram sua frota real ao Canal da Mancha, onde ocorreram afrontas no mar. Após, teve-se um grande período de trégua da guerra, marcado por casamentos e alianças entre os dois reinos.
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Na fase Lancaster, última da guerra, que durou de 1415 até 1453, encontramos uma grande ofensiva de Henrique V, que quase unificou as duas coroas com o Tratado de Troyes (1420) e o casamento do então rei inglês, Henrique V, com Catarina da França, filha de Carlos VI. Assim, tornando Henrique V rei da Inglaterra e herdeiro da França. Mas, tudo se desvaneceu com sua morte em 1422.
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É também neste período que Joana d’Arc, figura emblemática da guerra, entra em cena, com o objetivo de expulsar os ingleses e coroar o rei Carlos VII. Ela ficou conhecida no período por visões com santos e ainda foi considerada enviada por Deus, sendo responsável por vitórias dos franceses como, por exemplo, no cerco de Orleans (1429). Logo após a coroação do rei e certo avanço do exército francês, Joana perdeu sua popularidade e terminou sendo capturada pelos Borgonheses, que acabaram por negociar com os franceses a posse da prisioneira. Os ingleses a capturaram e ela foi a julgamento, sendo condenada à morte em 1431, considerada uma farsante que teria cometido, além disso, o grave crime de usar "roupas masculinas". Logo após a sua morte, recaiu sobre sua figura uma certa santidade e a consideraram-na uma heroína francesa. Após o fim da Guerra, também ocorreu uma revisão de seu processo, atestando diversas irregularidades.
Carlos VII, foi responsável por restaurar as finanças da França, assim possibilitando mais investimentos na guerra. A Batalha de Castillon, em 1453, ficou conhecida como a última batalha dessa longa guerra de mais de um século.
Nessa última fase, foi notoriamente exaltada a iniciativa do rei da França em empregar o primeiro exército permanente e em como sua autoridade acabou ficando permanentemente ligada a esses indivíduos.
Enfim, a guerra ficou conhecida por adquirir novas dimensões, nunca antes alcançadas, a isso é importante salientar os grandes avanços marciais. Ambos os lados contavam ainda com suas respectivas ordens cavaleiras, que acabaram tendo um papel simplório, porém de renome, como a Ordem da Jarreteira que pertenceu aos franceses e a Ordem da Estrela dos ingleses. Também ocorreu o advento do Arco Longo Inglês, o Long Bow, espólio da guerra com seus vizinhos, os galeses, quando a Inglaterra conquistou o País de Gales. Este, por sua vez, foi majoritariamente utilizado pelos ingleses na Guerra dos Cem Anos, sobretudo para impedir o avanço das tropas em território já conquistados.
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Outro aspecto crucial e que culminou em uma forte incubência nessa guerra, foi o uso dos mercenários (dentre eles encontramos franceses, ingleses, burgueses e outros), que no início desempenharam um papel predominante. Porém, na primeira trégua que ocorreu, seu emprego se tornou inviável. Como agiam por conta própria e só tinham obrigações quando eram pagos, ao não receberem cometiam uma série de furtos, estupros, cercos e outras crueldades com populações mais pobres, principalmente da França. Outra problemática possível de analisar é que apesar de roubarem, eles precisavam comer e sobreviver, pois estavam desmobilizados. Assim, mais ao final da guerra, ocorreu o advento de um exército leal ao rei e não somente a quem o pagasse. Essa iniciativa, por sua vez, foi tomada pela França.
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Hoje, o que temos a respeito da guerra e suas dimensões sociais se deve às crônicas escritas por ex-combatentes, tanto da cavalaria quanto da artilharia. Outro aspecto relevante dessa guerra foi a melhoria de posição na hierarquia social dos respectivos combatentes de ordens mais pobres, alcançados por meio da habilidade com as armas e que acabaram se tornando parte da aristocracia.
Nesse contexto, é possível distinguir o período como resultado do embate entre os dois lados que já ocorriam a mais tempo, também responsável por desencadear outros conflitos entre reinos próximos. Ficou conhecido como um intervalo de tempo avassalador e responsável pela morte de muitas pessoas de ambos os lados. Também foi responsável por várias trocas culturais, que já aconteciam antes da guerra com casamentos na aristocracia, porém, que se intensificaram pelo espólio de guerra. Assim como o avanço nas artes marciais, próprias do período e presentes em nosso meio até hoje, a exemplo do Arco Longo Inglês, o emprego de um exército leal a uma autoridade competente e, mais ao final da guerra e de modo ainda retraído, o emprego das armas de fogo e de canhões.
Sobre o autor: esse verbete foi escrito por Nicoly Jung, graduanda em história pela UFSM e membro do VIRTÙ. Email: nicolyjung048@gmail.com​
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Referências:
AMARAL, Flávia Aparecida. Guerra dos Cem Anos e Cruzadas: a literatura entre a verdade dos fatos e a verdade dos sentidos. Em Tempo de Histórias, Brasília, DF, n° 35, p. 84-103, dez. 2019.
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BASCHET, Jérôme. “Da Europa Medieval à América Colonial”. In: A civilização feudal. Do ano mil à colonização da América. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2023. p. 295-361.
COSTA, Ives Leocelso Silva. Considerações Político - Militares sobre a fase Eduardiana na Guerra dos Cem Anos (1337-1360). Revista Outras Fronteiras, Cuiabá, MT, vol. 6, n° 1, p. 3-18. jan./jul. 2019.
COSTA, Ives Leocelso Silva. A Cavalaria nas Crônicas da Batalha de Crécy (1346). Revista de Pesquisa Histórica - CLIO, Recife, PE, vol.40, n° 2, p. 5-20, jul./dez. 2022. Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/index.php/revistaclio/article/view/254031
FAVIER, Jean. A Guerra dos Cem Anos: A Construção de um século de traumas. Editora Fayard, 2022.
FLORI, Jean. A Cavalaria: a origem dos nobres guerreiros da Idade Média. São Paulo: Madras, 2005.
SANTOS, Fernando Pereira dos. A Conduta Marcial Inglesa na Guerra dos Cem Anos: um estudo sobre os ditames morais do conflito ao final da Idade Média (1400 - 1453). Santa Catarina: Editora UDESC, 2022.