Castelo medieval

O castelo medieval é um dos elementos mais marcantes da Idade Média ocidental. Ele está presente em filmes, séries, jogos, livros e contos de fadas, tornando-se uma das principais imagens do pensamento popular evocado pelo termo “medievo” (Pesez, 2017, p. 173). Apesar de ser parte de um pensamento, o castelo também é um elemento material, estando presente na paisagem até a atualidade. É evidente que, por muitas vezes, eles tiveram sua função modificada ou se encontram em ruínas. Conforme destaca o historiador Jean-Marie Pesez (2017, p. 173), “o castelo não pode atravessar os séculos sem passar por profundas modificações”. Tais mudanças são tanto materiais quanto simbólicas, e algumas delas resistem à ação do tempo, permitindo o estudo direto de suas estruturas. Porém, muitas fortificações desapareceram, sendo, por isso, importante que seja feita uma análise arqueológica e documental cautelosa que permita o estudo dessas edificações destruídas pela ação natural ou pelo próprio ser humano (Cruxen, 2004, p. 206).
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Tendo como foco principal o apresentado, é possível perceber que o estudo dos castelos medievais permite entender elementos do cotidiano destas sociedades que o cercam. A presença de um castelo tende a atrair populações, o que permite a formação de dinâmicas de poder senhoriais e culturais que, de outro modo, não existiriam (Pesez, 2017, p. 174). O historiador Edison Cruxen (2009, p. 250) aponta que é necessário compreender que a fortificação medieval desempenha um papel duplo: material, de proteção e moradia; e simbólico, como demonstração de dominação e autoridade senhorial.
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Em um primeiro momento, é interessante destacar as características arquitetônicas dos castelos, bem como as suas transformações ao longo do tempo. É importante reforçar que não existe uma fórmula para o castelo medieval, variando conforme a geografia, a disponibilidade de recursos, o poder e as necessidades de quem está construindo, entre outros fatores (Cruxen, 2009, p. 252; Pesez, 2017, p. 174). Porém, é possível identificar elementos em comum entre essas fortificações, sendo o mais fundamental, o fato de que um castelo é, antes de tudo, a residência de um senhor. Outras características comuns são torres, muralhas, pontes e fossos, com destaque a presença constante de uma ou mais muralhas.
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A partir disso, é importante apontar que as fortificações medievais passaram por diversas modificações desde seu surgimento até o seu desaparecimento ou modificação. Segundo Pesez (2017, p. 174), é impossível falar em “castelo” propriamente dito no período da Alta Idade Média, uma vez que, a ideia de fortificação e residência não estão vinculadas. As fortificações funcionavam como refúgios, suas defesas eram mais simples e muitas vezes naturais, o que permitia que os senhores não precisassem morar no local fortificado (Pesez, 2017, p. 175)
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Com o decorrer das mudanças políticas e sociais dos séculos X e XI, as estruturas fortificadas começam a se espalhar pelo Europa para garantir a defesa e o domínio territorial (Cruxen, 2012, p. 159; Pesez, 2017, p. 174). Esses castelos surgem por uma necessidade estratégica e cumprem funções defensivas e organizacionais, estando diretamente conectados às populações que defendiam, às necessidades políticas e econômicas e à exploração do território defendido (Cruxen, 2012, p. 159). Com relação à arquitetura, durante esse período são comuns os castelos em colina artificial, muitas vezes construídos em madeira, o que impediu que essas estruturas se preservassem ao longo do tempo (Pesez, 2017, p. 177). Esses castelos têm entre si uma configuração muito semelhante: uma torre central sobre uma colina artificial, muralhas geralmente circulares, fossos e pelo menos uma passarela de acesso (Pesez, 2017, p. 177-178).
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A partir do estabelecimento do senhorio, a arquitetura passa por adaptações, principalmente para acompanhar os progressos das tecnologias de batalha. Durante os séculos XI e XII, surgiram fortificações mais complexas, ainda com torres centrais e evidentes, mas com estruturas de defesa mais elaboradas (Pesez, 2017, p. 182). Nessa fase, aparecem inovações como orifícios para arqueiros, tetos mais elaborados denominados de abóbadas, torres de cercamento e sacadas e muros melhorados, além do aprimoramento das estruturas já existentes (Pesez, 2017, p. 185). A partir do século XIV, surgem estruturas como pontes levadiças, sacadas em pedra, defesas no topo das torres, muros mais grossos, câmaras de tiro e outras melhorias. (Pesez, 2017, p. 186).
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Assim como o exterior das fortificações evoluiu, o interior também sofreu alterações. O castelo, como fortaleza habitada, deve ter elementos essenciais do cotidiano do senhor. O cômodo mais importante do castelo é a “aula”, a sala principal, onde o senhor realiza seus banquetes e reuniões (Pesez, 2017, p. 188). Nas primeiras edificações medievais, eram comuns espaços como a sala de recepção, um espaço compartilhado entre a aristocracia e a população, o quarto senhorial e a sala principal (Pesez, 2017, p. 189). Durante os séculos XIV e XV, juntamente ao desenvolvimento das tecnologias militares, as fortalezas se expandem e ocorre o surgimento de novos ambientes como: salas com fogões, dispensas, arquivos, quartos individuais e avanços nas técnicas de iluminação e calefação (Pesez, 2017, p. 189-190). Tornaram-se frequentes itens decorativos em tecido como mantas, tapeçarias e tapetes, além de jardins internos, que favoreciam uma maior integração com a parte externa da fortificação (Pesez, 2017, p. 190). Outro espaço essencial era a capela, responsável por garantir a dimensão religiosa do castelo, podendo ser interna ou externa às paredes do edifício e com diversos tamanhos e formatos (Pesez, 2017, p. 191-192).
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Além das funções militares, sociais, econômicas, políticas, administrativas e residenciais, o papel simbólico, ideológico e cultural não pode ser excluído dos estudos relacionados aos castelos medievais. As construções transmitem uma mensagem para quem as enxerga, pois elas alteram a configuração da paisagem tanto de forma material quanto de forma simbólica (Cruxen, 2012, p 256). Sendo assim, elas consolidam a estrutura hierárquica e militar do modelo de sociedade da época, reforçando a autoridade dos senhores (Cruxen, 2012, p 161). A partir disso, se torna necessário destacar o elemento simbólico de um castelo. Esse elemento, de dominação e poder, surge a partir do elemento material das fortificações (Cruxen, 2009, p. 252).
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Considerando o apresentado, Cruxen (2012, p. 162) propõe a arquitetura dos castelos como uma forma de representação de poder, baseada em elementos que não podem ser ignorados, como: a altura, o tamanho e principalmente a longevidade. Como governar também significa convencer, o castelo mostra imediatamente força e imponência, impactando as pessoas em sua volta (Cruxen, 2012, p. 163). As fortificações representam, de forma concreta, o poder do senhor, pois fixam o poder na terra tornando-se o centro da vida das pessoas na Idade Média (Cruxen, 2012, p. 163-165). Há, inclusive, castelos com defesas simbólicas, que foram construídos com o objetivo central de demonstrar o prestígio senhorial, dando menos importância para a lógica defensiva (Cruxen, 2012, p. 165). O castelo também simboliza ao mesmo tempo a proteção e a violência: em um contexto de guerra, atua como fortaleza protegendo a população; em tempos de paz representa as demandas administrativas e culturais do senhorio (Pesez, 2017, p. 173-174). O castelo é, portanto, um símbolo de poder, ele representa uma forma de compreender o período medieval para muito além do aspecto material.
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Em suma, o castelo medieval é, acima de tudo, uma residência fortificada. Suas dimensões material e simbólica são conectadas e fundamentais para o entendimento da sociedade medieval. O castelo representa o domínio territorial, social e cultural do senhor, sendo um dos maiores símbolos da sociedade hierárquica característica do período. O estudo detalhado de sua arquitetura permite acessar não apenas aspectos técnicos da construção, mas também as dinâmicas sociais, políticas e simbólicas de sua época, tornando o castelo um ponto central nos estudos do período medieval
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Bibliografia
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CRUXEN, Edison Bisso. A fortificação medieval como documento histórico-arquitetônico e símbolo de poder. Métis (UCS), Caxias do Sul, v. 8, p. 249–267, 2009.
CRUXEN, Edison Bisso. Arqueologia medieval em Portugal e a contribuição do Livro das Fortalezas para o estudo da arquitetura medieval na Península Ibérica. Métis (UCS), Caxias do Sul, v. 3, p. 193–210, 2004.
CRUXEN, Edison Bisso. Castelo medieval: elementos simbólicos e representações. In: CRUXEN, Edison Bisso; MATTOS, Carlinda Fischer; SALOMÃO, Igor (org.). Reflexões sobre o Medievo II. Porto Alegre: Oikos, 2012. p. 155–176.
PESEZ, Jean-Marie. Castelos. In: LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean-Claude (org.). Dicionário temático do Ocidente medieval. Vol. 1. Tradução de Vivian Coutinho de Almeida. 1. ed. São Paulo: Editora Unesp, 2017, p. 173–194.
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Sobre o autor do texto:
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Luiz Arthur Balem Garbin é estudante de graduação do quarto semestre de licenciatura na UFSM e membro do Virtù. Email: luizarthurbalem@gmail.com
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