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Trovadorismo

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O Trovadorismo foi um movimento literário desenvolvido entre os séculos XII e XIV, cuja origens despertam muitos debates acadêmicos. O movimento floresceu em ambientes palacianos sob sistema de mecenato, atingindo seu auge com D. Dinis de Portugal (f. 1325) e encontrando seu crepúsculo no reinado de Afonso IV, por volta de 1350. Esse declínio ocorreu por conta dos novos ideais de nação que vinham surgindo, nos quais a ênfase na disciplina moral e física do cavaleiro, aliada à troca da caça com falcões pelo hipismo e ao culto aos esportes, preparou o espírito para a guerra, mas acabou desestimulando a poesia e interrompendo o surgimento de novos escritores (Spina, 1966, p. 18).

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 Segundo Massaud Moisés (1974, apud Algeri, 2007, p. 2), existem quatro teses fundamentais para explicar seu surgimento: a arábica, que vê raízes na cultura árabe; a folclórica, que a considera uma criação popular; a médio-latinista, que propõe uma origem na literatura latina medieval; e a litúrgica, que a entende como fruto da poesia cristã da época. Embora a influência provençal francesa tenha sido decisiva a partir de 1155, o documento mais antigo em galego-português data de 1198. Segundo Spina (1966), o problema das origens é complexo: as teses não se anulam necessariamente, mas ajudam a entender como o Trovadorismo criou seu “formalismo estético”.

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Esta produção poética era intrinsecamente ligada à música, ao canto e à dança, executada com instrumentos de corda como o alaúde e a harpa, o que justifica o termo “cantiga”. Diferente da literatura escrita produzida em latim nos conventos para e pelos clérigos, o repertório dos jograis era voltado a um público iletrado e utilizava das línguas locais. No campo lírico-amoroso, a influência de Platão foi marcante ao fornecer uma base metafísica para o “amor cortês”: a mulher amada era elevada a um plano espiritual inacessível e o amor, por nunca se realizar fisicamente, tornava-se um processo de ascensão e aperfeiçoamento moral do trovador (Algeri, 2007, p. 5).

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A lírica trovadoresca organizava-se em três gêneros principais, diferenciados essencialmente pela voz de quem fala (eu-lírico). Nas Cantigas de Amor, de influência provençal, o trovador falava em nome próprio (eu-lírico masculino) e expressava uma “vassalagem amorosa” à sua “senhora”. De acordo com Rômulo de Carvalho (1995, apud Algeri, 2007, p. 4), mesmo que os poemas fossem repletos de lamentações, os trovadores não pretendiam se casar com suas musas. O fato de a dama ser casada e pertencer à aristocracia alimentava um amor sofrido e votado ao sacrifício e, elevada ao status de ser superior por suas virtudes e beleza, essa mulher era vista como uma figura sagrada e fora de alcance. Era a poesia da “coita”, do sofrimento e da idealização platônica. 

Já nas Cantigas de Amigo, de raiz popular e tradicional, o trovador assumia um eu-lírico feminino e, assim, compreendia a alma da mulher, suas decepções e seus desejos. Aqui, a mulher cantava um amor real e espontâneo pelo seu “amigo”, muitas vezes em tom confessional, expressando decepções e desejos (Algeri, 2007, p. 8). Na cantiga de amigo, o uso do eu-lírico feminino torna o amor real não mais impossível. Aqui, o conteúdo torna-se quase confessional, com sentimento espontâneo, natural e primitivo – diferente da cantiga de amor – com a mulher entregando seu corpo e alma à paixão incompreendida, sendo abandonada por seu amado.

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Estruturalmente, as cantigas de amigo utilizavam o paralelismo – repetição de ideias em pares de estrofes com variações mínimas de rima – e o refrão, além do recurso do leixa-pren, onde o final de uma estrofe inicia a próxima. A estrutura do paralelismo fundamenta-se na combinação de pares de estrofes em vez de unidades isoladas, onde dois dísticos reiteram a mesma ideia, variando quase exclusivamente as rimas entre as vogais tônicas a e i ou ê. O resultado é uma composição de economia semântica, capaz de desdobrar dezoito versos a partir de apenas cinco enunciados distintos, priorizando a cadência rítmica e a repetição sonora em detrimento da progressão narrativa (Saraiva, 1985, p. 49).

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Além do amor, o Trovadorismo abrangeu o gênero satírico através das Cantigas de Escárnio e Maldizer, que escandalizavam a sociedade. Enquanto nas de escárnio a crítica era indireta, irônica e sem citar nomes, as de maldizer eram ataques diretos, nominais e frequentemente obscenos.

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Quanto ao formalismo da poesia trovadoresca, Spina (1966, p. 54) destaca os topoi recorrentes que funcionavam como clichês literários: Metus praecludit vocem, que se referia à perturbação emotiva e à timidez do amante quando está diante da mulher amada. O trovador sentia-se incapaz de falar, sua língua “travava” ou ele dizia algo diferente do que planejou devido ao estado de alucinação causado pela beleza da dama; Somnus et sensus aversi, a insônia do amante. Segundo o preceito tradicional (vindo de Ovídio), aquele que é dominado pela paixão não consegue dormir nem comer. Na lírica galego-portuguesa, era comum a associação entre “perder o sono” e “perder o sen” (juízo/sentido); Oculorum lacrimas effundere, tópico que descrevia o pranto como um sintoma exterior da “enfermidade” amorosa. Spina destaca fórmulas como “chorar dos olhos” ou “chorar com os olhos”, comuns tanto na lírica quanto na epopeia medieval, sendo as lágrimas vistas como sinal de sensibilidade e humildade; Mortem amore sine mutuo, que representava a ideia de que a única solução para a angústia de um amor sem “favor” (correspondência) é a morte. O trovador “morria de amor” ou desejava o fim da vida diante da crueldade da dama, um motivo que se tornou tão abusado que chegou a ser parodiado em cantigas de escárnio; Alliense die natus sum, fazendo parte da execração, onde o trovador amaldiçoava a si mesmo, o dia em que nasceu ou a hora em que viu a mulher. É a expressão do desespero absoluto, onde o poeta culpava o próprio destino ou os olhos pela sua infelicidade; Oculi mei, lumen meum, inserido no panegírico, é o elogio da mulher através de expressões como “lume destes olhos meus” ou “meu ben” e reflete a importância dos olhos como veículo da paixão e a visão da amada como a luz que guiava o trovador.

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Muitas dessas poesias trovadorescas perderam-se por terem sido transmitidas oralmente e, somente depois, com a imprensa, elas foram registradas em grandes coleções, os Cancioneiros. Os três principais são: Cancioneiro da Ajuda, com 310 cantigas, quase todas de amor; o Cancioneiro da Vaticana, possuindo 1205 cantigas em todos os seus tipos, e o Cancioneiro da Biblioteca Nacional, com 1647. Esses livros foram fundamentais para preservar as cantigas medievais, sendo graças a eles que a música dos trovadores deixou de ser apenas falada e passou a ser escrita, servindo como registro da lírica galego-portuguesa do período.

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Concluindo, o Trovadorismo uniu poesia e música de um modo que ia além de simples canções, criando padrões para falar de amor e críticas sociais que alcançavam desde a aristocracia até o povo comum. Mesmo com o passar do tempo e as mudanças nos ideais da época, que acabaram diminuindo o interesse por esse tipo de arte, a poesia trovadoresca continuou importante para entender como outros gêneros literários viriam surgir, sendo que se tornaram acessíveis na forma escrita por meio das coleções de Cancioneiros.

 

Esse verbete foi escrito pela graduanda Vitória Lindner.

E-mail: vitorialindner080705@gmail.com

 

Referências Bibliográficas

ALGERI, Nelvi Malokowsky; SIBIN, Elizabete Arcalá. A poesia trovadoresca e suas relações com a literatura de cordel e a música contemporânea. 2007. 20f. Monografia (Especialização em Letras) – Faculdade de Letras da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. 

SARAIVA, António José; LOPES, Óscar. História da literatura portuguesa. 13. ed. corr. e actual. Porto: Porto Editora, 1985.

SPINA, Segismundo. Do formalismo estético trovadoresco. São Paulo: Secção Gráfica, 1966.

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